Revendo “Vida de Inseto”, tive um “felling” bem engraçado. Prepare-se para viajar um pouco (risos). Justamente quando o protagonista-formiga enfrentava verbalmente o antagonista-gafanhoto, depois de um ataque do pássaro artesanal, controlado por formigas, ele solta a frase: vocês é que deveriam nos servir... estamos em maior número do que vocês... Ele subitamente é calado pela investida do gafanhoto, que tenta humilhá-lo. Na história, os gafanhotos vinham todo o verão buscar alimentos que as formigas produziam e recolhiam, deixando parte para as mesmas subsistirem. Muito parecido com nosso cenário político, no qual a maioria só busca os apoios na hora de se eleger, ou na captação de impostos, e simplesmente evapora, quase perfazendo um salto quântico da periferia para sua sala de estar com tela 3D. E ainda são folgados, veja bem (obrigado Daiza) aumentando vertiginosamente seus já elevados salários, para não fazer coisa alguma pela população. O protagonista é uma formiga esperta, que inventa coisas, mas que geralmente são mal-manuseadas e geram problemas. Ele mesmo destrói acidentalmente toda uma colheita e acaba causando uma crise na sociedade que ele está inserido. Não é novidade que pessoas com grandes idéias são uma pedra no sapato dos conservadores, e usam qualquer motivo para isolar o individuo. Dito e feito. Ele é convidado a vagar nos ermos, a margem da sociedade que o criou. Exílio político te lembra alguma coisa? Imagino que sim. Quem opta por um novo caminho, bom ou não, é tachado de marginal, entre outros adjetivos pejorativos que não me convém explicitar. Nessa empreitada, ele termina por conhecer uma trupe de circo, digamos, fracassada, para criar uma frente de batalha contra os gafanhotos. Se a cara formiga tivesse captado a mensagem original como uma expulsão ele nunca teria essa motivação, o que é, admito, muito cômico. Inseto vai, inseto vem e a formiga acaba convencendo todo mundo a lutar, ao invés de se curvar diante dos gafanhotos, que utilizam um sistema também semelhante ao da máfia ou, digamos, uma troca de “favores”. A tal trupe, que podemos comparar com os movimentos artísticos de libertação de tempos atrás, fica responsável de organizar o front, utilizando a ideia da réplica de um pássaro para afugentar os malfeitores. Pássaro, voo, liberdade, verdade. Bastante conectado, eu diria. Somente quando as formigas passam a ter essa visão é que elas lutam sem medo em favor das próprias vidas, ameaçadas pelos gafanhotos. O fim da história, em resumo, é a derrota dos gafanhotos pelas formigas, com ajuda de uma bem colocada chuva tropical, somado a morte do seu líder por um pássaro verdadeiro. O pássaro, a imagem da verdade e da libertação, é o verdadeiro herói do conto. A chuva seria o simbolismo da purificação, afinal, para formigas, qualquer pingo pode ser comparado a uma enchente são-paulina. A trupe, mais uma vez, volta a estrada e inicia uma nova temporada de apresentações. Interessante são, também, os integrantes deste bando: um mago louva-a-deus à la confúcio, uma dupla de estrangeiros dançarinos de balé russo meio tico-e-teco, uma joaninha macho com temperamento explosivo, uma lagarta corpulenta com ânsia para metamorfosear-se em borboleta, dentre outros. Todos representações culturais cotidianas. Vale lembrar do empresário pulguento que só pensa em lucros, nem um pouco parecido com os empresários de hoje, né? Outro evento considerável é metamorfose da lagarta macho em borboleta, que se resume a mudança de cor e adição de diminutas asas, com funções galináceas, mas que conferem um novo look, digamos, atraente, ao personagem. O filme chega a tangenciar a ideia de choque cultural que podemos perceber ainda hoje, sem contar as noções de liberdade, expressão e reação, abordando temas intrigantes de maneira bem contudente. Indo do imperialismo ao homossexualismo, "Vida de Inseto" mostra um tour a respeito do que é sociedade e como a encaramos. Até a próxima referência subliminar.