Ontem, dia 12 de novembro de 2010, durante o encerramento daquela que seria minha primeira e única Semana de Química, a 30° a propósito, permaneci atônito ao contemplar a derrota de um homem. Do homem que, ao entrar para antiga CEFET-Q, antes ETFQ, hoje IFRJ, mostrou uma visão totalmente diferente daquela que, tanto eu quanto meus companheiros, tinham de uma escola. Uma escola, uma instituição diferenciada. Durante os primeiros meses, eu, particularmente, não percebi essa visão de todo. Mas as mudanças vieram rápido até nós. Ele, que havia sido aluno, voltava para aquele que considerava como seu lar, e mesmo ai, já não era mais o mesmo. O espírito etefequiano, como ele prefere se referir, já não era mais tão presente. O declínio batia à porta. Durante seu último discurso, ele deixou bastante claro que aquela escola estava longe daquele na qual ele havia crescido e desejava tanto voltar, participando do apogeu das vidas de muitos jovens, que como ele, foram em dias distantes. Segundo suas palavras, ele não reconhecia aqueles corredores, aqueles professores, aqueles alunos, aquele lugar. Salvo alguns, mas que a maioria cumpria em esconder. Pessoas que não tinham a mesma visão, os mesmos objetivos, as mesmas aspirações. Nada era igual, e tudo tendia a piorar. Participei de uma de suas primeiras turmas, cresci nela, e dela fiz grandes amigos e parceiros, pessoas que não esquecerei tão cedo, pessoas que passaram muitas coisas juntas, embora eu mesmo não fosse tão sociável assim. Ali eu vi um homem com sonhos, com vontade de fazer aquilo que fazia melhor: ensinar. Um professor de verdade, não apenas alguém que cumpre seus horários e cospe o conhecimento que tem. Um homem ávido para dar o máximo por aqueles que tanto queriam receber. Ontem, já não era o mesmo homem. Nesses 4 anos e meio que se passaram, convivi esbarrando com ele, seja nas aulas, seja pelos corredores, seja tentando ser sociável com um sorriso e um “bom dia”. Nesses 4 anos e meio, vi não só alunos inteligentes, alunos empenhados, mas alunos revolucionários, alunos que não eram a maioria, alunos que eram diferentes. Pude ver o quão fortes poderíamos ser, com uma direção bem definida. Pude ver um grêmio forte e atuante, e pude ver esse mesmo grêmio acabar. Pude ver professores, que como ele, faziam da escola uma vida. Mas ontem, pude ver que aquilo havia mudado, gradativa e silenciosamente, mudado para um semblante descaído, sem vigor, sem paixão. Os etefequianos talvez estivessem extintos, ou talvez estavam escondidos, ou ainda poderiam estar dormindo. Eu mesmo, que tive o prazer de presenciar o apogeu desse homem, não me considerava um etefequiano. Mas, com o passar do tempo, culminando nesses últimos 12 meses, estive muito perto disso. E nessa última semana, havia feito mais do que poderia imaginar ser possível: sentir-me feliz e realizado em estar passando adiante algo que eu também havia testemunhado. Não era só um projeto. Era uma ideia, uma razão além da profissional, de estar ali, passando horas a fio repetindo e repetindo frases, parágrafos, textos, monografias, tudo, só para que cerca de 400 pessoas vissem. Uma luta que valeu a pena ser lutado, com sentimento de do dever cumprido, da tarefa executada com louvor, embora não reconhecida, ou mesmo vencida. Ontem, eu vi um homem sem lutas, sem desejo de lutar por qualquer uma delas, se estas estivessem ao alcance. Nesses 4 anos e meio, eu só queria terminar os estudos e sair daquele lugar para sempre. Mas agora já não era mais assim. Eu queria ficar, queria voltar, queria estar ali, fosse como fosse, para rever o lugar que havia me mudado em tantos aspectos, para rever amigos, parceiros ou desconhecidos, que como eu, passaram ou estariam passando por ali também. Agora eu entendia o quanto professores e alunos se pareciam, pelo desejo de permanecerem naquele lugar, sem nenhum atrativo físico, mas que carregava uma grande ideia. Uma ideia que era à prova de balas, como ele mesmo citou. Mas parece que a ideia que ele tinha no início não era à prova de todo o resto. Uma ideia que parecia ser manter o espírito etefequiano aceso, mas talvez esse mesmo espírito já estivesse nas últimas da sua combustão. Faíscas ainda permaneceriam, mas o fogo do passado não voltaria, pelo menos não tão cedo. E aquele homem não queria esperar mais pelo seu retorno, por isso tentou ressuscitá-lo, mas isso já não parecia mais possível, e ele deixou de tentar. Seus esforços não eram respondidos como ele queria. E eu vi esse homem despedir-se se seu sonho. Despedir-se de um sonho, de uma ideia, de uma vida. Deixou órfãos alguns dos que o admiravam, deixou boquiabertos todos que o assistiam que, gostando ou não dele, percebiam nele um homem de princípios mais fortes que a maioria. Mas o que sobra de princípios se o homem não tem sonhos, sem ter pelo que basear seus princípios, sem ter objetivos que se possam alcançar? Ontem pode ter sido um dos dias mais tristes da vida de muitas vidas que estavam, e que não estavam, presentes. Foi uma pena, e uma grande perda, não só pelo profissional, mas pelo pessoal. Eu mesmo, com a voz embargada, cumprimentei esse homem, dizendo: Que a Força esteja com o senhor, professor. E ele, mesmo naquele instante respondeu: Só depende de você. Concordo com ele. Meus sonhos dependem de mim, e mesmo ele, que já não tinha mais o mesmo sonho da juventude, pode dizer isso. Um grande líder deve tirar lições de toda situação que passa, lições que lhe sirvam para crescer, e evoluir. Um grande líder sabe a hora de parar seus esforços. Depois de 4 anos e meio, percebo que consegui cumprir esta missão. Mesmo em meio à tristeza e desolação de muitos, pude captar uma coisa: não posso desistir de meus sonhos, meus objetivos, e ainda que tudo esteja contra mim, não fiz nada em vão, e ainda que pareça infrutífero, sem resultados, sem saída, nada volta vazio, nada é perdido, nada é tão pequeno que não possa ser considerado. Podemos perder um homem, mas suas idéias e seus sonhos vivem em outros, e permanecem eternamente. Não é só um jaleco branco, ou um químico qualquer. Agora, e ainda agora, somos diferentes da maioria, não somente no quesito conhecimento, mas como seres humanos, seres que pensam, e farão do futuro algo que possamos nos orgulhar. Mesmo que extintos, fizemos a nossa parte. E continuaremos fazendo. Ontem, vi um homem fazer como o mestre jedi Obi-Wan Kenobi, deixando se ser assassinado por seu ex-pupilo, Anakin Skywalker, cognominado Darth Vader, para tornar-se conselheiro espiritual de Luke Skywalker, último dos jedi, com exceção do aposentado mestre Yoda. Último jedi, que tinha a missão solitária de trazer a paz mais uma vez. Ontem vi esse homem morrer, e no mesmo dia, muitos homens nascerem e em breve, evoluírem.
Porque quem salva um, salva o mundo inteiro.
Se orgânica é a química dos vivos, a inorgânica é a química dos imortais.
Salve o primeiro e último monstro sagrado da química dos meus tempos, Professor Rodrigo Ribeiro, Federal de Química.