Algo que reparei, recentemente, ao divagar pelo universo de Resident Evil, a conhecida saga que mescla zumbis carentes, armas automáticas e puzzles meia-boca, é o quanto tudo isso parece se confundir com a farmacêutica. Incrível, não? Nem tanto assim. Não que eu não perceba que o estado putrefato dos inimigos, que obviamente necessitam de um tratamento de pele apropriado, além de um banho-de-loja, a fim de substituir aquele estilo punk-grunge que tanto eles “curtem”. Não exatamente relacionando indústrias têxteis e cremes anti-idade, que até valeriam a pena se eu estivesse discutindo sobre a longevidade das boy-bands de happy-rock, ou new-emo, shemale’s party, ou ainda qualquer outra junção de termos musicais que não sintetizam a realidade do estilo dessas criaturas, aparentemente, extra-terrenas. Voltando a intensidade da cultura RE, a farmácia é um ramo obscuro, analítico e pseudo-solidário. Basta reparar em como os antibióticos agem, sem comentar as armas biológicas, que são, em suma, bactérias geneticamente modificadas com intuito de destruir populações pobres de continentes abarrotados de gente, ou também, armas de destruição em massa dos menos afortunados economicamente (vide Ebola). Comprimidos e mais comprimidos, nem tão comprimidos assim, que tem, no mínimo, o ideal de restaurar a homeostase corpórea de indivíduos enfermos. Sem contar os muitos efeitos colaterais, que, quando em postos em longa cadeia, fazem do malfadado ser adoentado retornar ao “princípio das dores”. Por exemplo, um certo fármaco contra diabetes causa problemáticas cardiovasculares, que, quando tratado por outros fármacos, agora contra o referido problema, causam úlceras gástricas que, quando tratados pelo mesmo ramo medicinal, geram déficit de cálcio nas estruturas ósseas, e assim seguindo infinamente, na inveterada manutenção da sub-vida da população. População essa que, com o avanço da medicina na cura, ou quase isso, de doenças, fica cada vez mais doente. Dores nas costas são tratadas como falhas genéticas graves, e nunca, como aquela pelada de profissional-amador-de-fim-de-semana, ou aquele Viagra mal-tomado por um adolescente na flor do desejo de expelir, em um invólucro apropriado, sua inerte abundância de células sexuais. Segundo “Gattaca”, todos os seres estão fadados ao destino genético das doenças graves, medianas e de pequeno porte, enquanto as igrejas neo-pentecostais desmitificam essa assertiva. Em principio, qual o primordial objetivo dos fármacos? Curar ou manter vivo o enfermo infeliz? O que é mais prático, em questões financeiras, isentar indivíduos da obrigação psicológica de comprar remédios, ou perdurar o caos biológico, fantasiosamente mascarado por uma sensação de anestesia, digna de Michael Jackson? Perguntas retóricas, é claro. Uma sociedade que tende a enfermizar até uma erupção cutânea é um prato cheio para os produtores de pseudo-soluções psico-biológicas. A ideia principal de RE situa-se na tentativa das Corporações Guarda-chuva-de-papelão-radioativo-que-a-Rihanna-adora-usar-sob-chuva-ácida-paulistana ou Umbrella Corporation, como é mais conhecida, de ressuscitar indivíduos, e não uma cura para qualquer doença, e que, tecnicamente, permitiria que esses indivíduos permanecessem dependentes desta grande empresa farmacêutica. Esse é o sonho de qualquer uma destas empresas, conglomerados ou cartéis: manter a população viva, no limiar da possibilidade de morte, sob medicação, e nunca eterna, ou mesmo momentaneamente, saudável. Ou seja, manutenção do monopólio sobre as vidas dos indivíduos dependentes. Outros fatores influem na questão capitalista: a detenção de novas matérias-primas, capazes de aumentar a aplicabilidade dos fármacos, ou, como pode-se dizer, assaulto-a-mão-armada-em-território-amazônico-brasileiro-de-preferência, a chamada biopirataria, que, como os narcóticos, são fantasiosamente proibidos e inveridicamente fiscalizados, pois carregam tanto peso monetário quanto a carga tributária de nossa Pátria amada, o que é, factivelmente interessante para órgãos públicos e privados, além de pessoas físicas. O enredo envolvente, história corriqueira, mas convincente, personagens carismáticos, armas automáticas com munição limitada, inimigos absurdamente burros e numerosos, cenário repugnante, e absolutamente escuros a fim de deixar o jogador sensível a qualquer grunhido gutural de inimigos não-silenciosos, são fatores que fazem da franquia um sucesso, não só nos consoles, mas no cinema, com adaptações bizarras e desfechos interminavelmente imprecisos. Os episódios mostram, em si, como grandes idéias dão tremendamente errado, principalmente em se tratando de espionagem industrial. Tais grandes idéias, incrivelmente fictícias, que resultam em uma massa ensandecida, e particularmente faminta, de fregueses insatisfeitos que só querem, e só, se alimentarem das vísceras, órgãos vitais e até genitais dos seus propangandistas, o que faz pensar que perturbar os mortos nunca é uma ideia tão grande assim. Enfim, mesmo com todas as controvérsias cronológicas, é um grande jogo que sintetiza o desejo menos moralista da medicina. Continua sendo incrível como as pessoas não enxergam esse tipo de informação simples, o que nos faz pensar que aquele chazinho de boldo da vovó faz um bem danado, ou uma tremenda vontade de urinar a cada cinco minutos, que também faz bem, mas como os vegetais, as pessoas preferem fatias gordurosas de insumos animais e quantidades inebriantes de cloreto de sódio, como principal condimento nas iguarias, fechando o ciclo da doença e pseudo-cura com os sádicos antibióticos. Parafraseando com o próprio RE, “YOU LIVE”, ou quase isso.
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