E assim cai a comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos, São Paulo. Cenas com requintes de exagero dignos do fatídico episódio no extinto Carandirú. É um modo de se resumir o nível da operação tática da PM paulistana, com o aval do Governo do Estado, segundo o alíbi de devolução de espaço a um criminoso declarado, Naji Nahas, e somado a apatia de um Governo Federal omisso e sínico. Situação: uma área da ordem de grandeza dos milhares de metros quadrados, considerada apenas parte do peso morto das empresas de Nahas e de Daniel Dantas (ambos indiciados na operação Satiagraha), acusados de diversos crimes econômicos envolvendo a quebra da Bolsa do Rio de Janeiro ainda no fim dos anos 80. Área essa que teria sido comprada por Nahas do Estado de São Paulo, que fora desapropriada depois da morte de seus legítimos donos, sendo até dias atrás ocupada por uma parcela carente da população paulistana. Motivação: segundo o próprio Governo Estadual, Nahas estaria reivindicando legitimamente a área. O STJ já havia respondido negativamente aos apelos de Nahas, porém o mesmo decidiu apelar diretamente para o Governo Estadual, deixando a disposição uma força policial de quase 2 mil homens. Tal poderio fora utilizado para, supostamente, desbaratar o, também supostamente existente, tráfico de drogas, comandado supostamente pelo traficante Fabiano Atanásio da Silva, o "FB". Ato: A polícia invade, de maneira cabal, a comunidade do Pinheirinho, com direito a granadas de efeito moral, tropa de choque e ações de guerrilha urbana. A população esboçou reações que não passaram de alguns carros e ônibus queimados, não havendo nem mesmo uma troca de tiros. Os desabrigados (pois suas casas também estavam sendo demolidas durante a operação) tiveram que rumar para escolas públicas e abrigos do Governo, a fim de encontrar refúgio depois de terem perdido tudo durante a fuga como documentos, itens de vestuário e móveis. Nenhum paiol de armas ou qualquer depósito de drogas foi encontrado e todos os presos eram pessoas da comunidade que participaram da resistência as ações de brutalidade. (a maioria dos) Veículos de comunicação pouco se aprofundaram no assunto, preferindo dar continuidade ao determinado pelo governador Geraldo Alckmin. O Governo Federal não se pronunciou, dando a atender que apoiava (ou não se intrometeria) a defesa de Nahas. Contradições: Se uma empresa falir, todos os são bens físicos são amortizados, que passa a ser posse do Estado a qual pertence. Dadas as circunstâncias, o Estado devolveu a Nahas o que ele havia perdido legalmente, o que constitui uma operação financeira ilícita. Um Robin Hood as avessas: tirou dos pobres (que ali residiam há mais de 20 anos) para dar ao rico. Em seguida, usou a força policial amplamente equipada (como pouco se vê em dias normais nas ruas) do Estado nessa transação. Uma operação dita como que para desestruturar um tráfico de drogas que não existia, a la George Bush e sua "cruzada" pelo Iraque a procura de "armas de destruição em massa". Mas admito (pelas consequências), o petróleo árabe é um arma de destruição em massa em potencial, sem dúvida. Os desabrigados, hoje, ocupam áreas do governo dos quais não deveriam usufruir para estes fins, comprometendo não só a integridade física deles, mas atrapalhando o próprio Estado. Além de não receber um centavo, gastou alguns milhares (talvez em uma ordem de grandeza maior) de reais. No meio disso, ultrapassar uma ordem expressa e totalmente legal de uma instância superior da (dita) Justiça (Federal), sem receber nenhuma resposta ou nota de advertência é, no mínimo, estarrecedor. Um presidente que um dia defendeu (isso mesmo, pretérito perfeito do indicativo) reforma agrária não deveria se dar ao luxo de cometer a gafe de se abster de um assunto dessa estirpe. Mas assim o fez (o que não é nada assustador dado o histórico de hipocrisia política). Conclusão: Se país rico é país sem pobreza, estamos cumprindo o objetivo. Em breve não haverá pobreza, porque todos vão ser desabrigados e morreram como indigentes. Viva o princípio brasileiro da exclusão!
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