terça-feira, 31 de agosto de 2010

Escoteiro? Eu?

Mais um post ao estilo "diário". Realmente não havia pensado nisso, mas esse fato vale a pena escrever. Milagrosamente, eu acordara cedo. Depois das habituais atividades do lar, arrumei-me para ficar o dia inteiro fora. 1°: dentista às 9h. 2°: estágio de 11h às 17h. 3°: escola de 18h às 22h. Eu deveria estar mal-humorado? Não estava. Após uma longa conversa com minha amada namorada sobre tantos assuntos (que não vou listar aqui, é claro), eu estava feliz "à beça". Chegando à estação próxima ao meu local de trabalho, segui em linha reta pela rua que leva até ele. Parado à um portão (a casa era grande, e pelas janelas, parecia arejada, além dos ramos de hera que cobriam o muro, uma vegetação interna própria, espreguiçadeiras na varanda e uma carro, quase novo, na garagem) estava um senhor, dos seus (talvez) 60-70 anos, com uma muleta. Quando estava a poucos metros dele, este me chamou. Talvez minha camisa garantisse alguma confiança (mesmo depois de uma derrota vergonhosa, sim, eu estava usando uma camisa do Flamengo). Atendi prontamente, e ele me pediu para que o ajudasse a atravessar a rua. Pensei logo nos filmes e cartoons da minha infância. Nunca antes tive uma oportunidade como aquela. Achei engraçado. Me pediu para segurar sua mão esquerda com minha mão direita. Como de praxe, me confundi em qual lado era o direito, e só depois de uns 5 segundos eu me lembrei (sou canhoto, mas não acho que essa seja a causa do problema). Reparei que os músculos e tendões da mão do senhor eram como se atrofiados, parecendo um sinal de "o.k." (achei que ele sofrera um derrame). Sua roupa era manchada, mas não era suja, e ele não cheirava mal. Tinha olhos amarelados e seu cabelo estava úmido e penteado. Disse-me que tinha uma perna mecânica, não podendo se locomever sozinho numa rua movimentada, embora ele esperasse sozinho no portão de sua casa. Contou sobre como perdera sua perna, usando a sigla "CB 500". A princípio não entendi, mas ai "caiu a ficha": ele havia tido um acidente de moto. Enquanto ele falava, raciocinei um pouco e captei o seguinte: ele não guiaria uma moto depois de velho, aquele acidente ocorrera na juventude, e provavelmente ele teria menos idade do que aparentava. Segundo suas próprias palavras, na época "livro de trânsito era revista em quadrinhos e placas de sinalização eram desenho animado". Suas piadas eram boas (melhores do que as minhas, pelo menos) e até faltavam poucos dentes em seu sorriso (ele tinha todos os "centro-avante"). Havia calculado que chegaria no estágio no momento exato do início de meu expediente. Agora eu sabia que chegaria atrasado. Ahh, eu já havia estado atrasado diversas vezes e aqueles cinco minutos não fariam nenhuma falta. Alertei-o quando começamos a atravessar a rua. Carros vinham em nossa direção. Ele não deu bola, dizendo: "a preferência aqui é minha!". Assenti. Afinal, se ele fosse atropelado, eu iria junto. Poderíamos até bater mais um papo internados no hospital, além do que não precisaria ir mais ao estágio ou escola até que estivesse recuperado. Eu, definitivamente, não queria que ele fosse atropelado. Chegando ao ponto, ele acenou e disse algo a um fiscal que não deu a mínima para o que aquele senhor dizia. Olhei, percebendo que aquela cena deprimente estaria se repetindo a todos os anciãos em todo o território, pelo menos, do Rio de Janeiro. Ele queria ficar ao poste, mas graças a Deus, seu ônibus chegou no instante em que nós alcançamos a calçada. Não gostaria de deixá-lo ali, praticamente sozinho. Ajudei-o a subir, e ele explicava ao motorista onde deveria descer. Reparei na indiferença do motorista, mas talvez fosse só minha impressão. O senhor me agradeceu várias vezes, e no fundo, torci para que ele chegasse ao seu destino em segurança. Me dirigi ao estágio enquanto via o ônibus sair do ponto. Cheguei 5 minutos atrasado, e encontrei meu professor conversando com minha superiora. Uma cena incomum. Cumprementamo-nos e ele saiu. Não dei atenção ao horário. Estava satisfeito o suficiente para até levar um bronca. Mas não levei. Trabalhei minhas horas, fui à escola, e de lá para casa. Já eram 23h. Todo o dia, a lembrança daquele senhor me vinha a mente. Quem sabe não o encontraria outro dia? Talvez nunca mais o visse. Recordo-me da passagem: "...E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas; e porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes..." Mateus 25:31-40. Foi um dia, no mínimo, interessante.

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